Está parado no trânsito de Maputo, hora de ponta, sol a pino.Ou talvez esteja na Estrada Nacional N1, a meio de uma viagem longa, com o calor a entrar pelas janelas.De repente, olha para o painel. O ponteiro da temperatura já passou o meio e está a subir, devagar mas sem parar, em direção à zona vermelha.
O coração acelera. Vem logo à cabeça a pergunta que todo o motorista moçambicano já fez pelo menos uma vez: e agora, o que faço?
Vamos explicar porque é que o motor a aquecer é tão comum em Moçambique, o que fazer nos primeiros segundos de pânico, e como evitar que um simples aviso no painel se transforme numa junta da cabeça queimada ou, no pior dos casos, num bloco de motor para substituir.
Os Culpados Mais Comuns pelo Sobreaquecimento do Motor
Antes de pensar em mecânica complicada, é preciso entender que o sobreaquecimento quase sempre nasce de um pequeno grupo de causas bem conhecidas. Conhecê-las é o primeiro passo para evitar o desastre.
O erro mais comum, e também o mais caro, é o uso de água da torneira em vez de líquido de arrefecimento. Muitos condutores, por economia ou por simples desconhecimento, enchem o radiador apenas com água comum, esquecendo que ela ferve a uma temperatura muito mais baixa do que o líquido de arrefecimento, também chamado anticongelante. Com o calor de Moçambique, isso significa que o motor entra em sobreaquecimento muito mais rápido do que deveria. Pior ainda, a água da torneira tem minerais que, com o tempo, criam ferrugem e calcário dentro dos canais internos do motor, e esses depósitos vão entupindo o sistema pouco a pouco, até se tornar um verdadeiro radiador entupido, incapaz de fazer circular o líquido como devia. O líquido de arrefecimento correto não é um luxo; é uma das peças mais baratas que protege as mais caras do seu motor.
Outra causa frequente são as fugas no radiador ou nas tubagens. As estradas moçambicanas, com as suas conhecidas valas e lombas, são implacáveis com a parte baixa da viatura. A vibração constante vai cansando as tubagens de borracha, que com o tempo ressecam, ficam porosas e começam a deixar escapar líquido de arrefecimento, gota a gota. O próprio radiador, feito de alumínio fino, também pode furar com o impacto de pedras projetadas pelas rodas de outros veículos. Uma fuga pequena pode passar despercebida durante semanas, até que um dia simplesmente não haja líquido suficiente para arrefecer o motor.
Há ainda a falha na ventoinha, também chamada eletroventilador, ou no termóstato. Quando se está a conduzir no calor, parado no trânsito, é a ventoinha elétrica que faz o trabalho pesado de puxar ar fresco através do radiador. Se o eletroventilador não liga, por avaria no motor elétrico, no relé ou no sensor de temperatura, o calor acumula-se rapidamente sem que o condutor perceba de imediato. Já o termóstato tem a função contrária, regulando quando o líquido deve circular para o radiador, e se ficar travado na posição fechada, o líquido fica preso junto ao motor, sem nunca ir arrefecer. O resultado é o mesmo: o ponteiro a subir sem explicação aparente.
Por fim, há a bomba de água danificada, o coração de todo este sistema. É ela que empurra o líquido de arrefecimento por todo o motor e pelo radiador, num ciclo constante. Quando a bomba começa a falhar, normalmente por desgaste do rolamento ou da junta interna, a circulação torna-se fraca ou pára por completo. Mesmo com líquido suficiente no sistema e um radiador limpo, se a bomba não estiver a fazer o seu trabalho, o motor vai aquecer da mesma forma.
O que Fazer de Imediato Quando o Motor Aquecer
Viu o ponteiro subir? Mantenha a calma e siga esta sequência, sem pular nenhum passo.
A primeira reação deve ser encostar em local seguro o mais rápido possível. Reduza a velocidade, ligue o pisca de emergência e procure a berma ou um espaço fora da via de trânsito. Logo a seguir, desligue o motor imediatamente. Nunca continue a andar “só mais um pouco” para chegar a casa ou ao destino, porque cada minuto extra com o motor a trabalhar quente aumenta o risco de queimar a junta da cabeça. Pode abrir o capô, mas sem tocar em nada de metal, deixando o calor sair naturalmente por uns minutos antes de se aproximar mais.
ALERTA DE SEGURANÇA: Nunca, em nenhuma circunstância, abra a tampa do radiador ou do reservatório de expansão com o motor ainda quente. O sistema está sob pressão e o líquido pode jorrar a temperaturas acima dos 100°C, causando queimaduras graves na cara, nos braços e nas mãos.
Espere pelo menos 20 a 30 minutos antes de voltar a aproximar-se com mais confiança, e só depois de o motor arrefecer significativamente é que deve verificar o reservatório de expansão com cuidado. Com o motor já frio, observe, sem abrir nada ainda, se o nível de líquido está visível e dentro das marcas mínima e máxima indicadas no próprio reservatório. Se o nível estiver baixo, abra a tampa lentamente, com um pano por cima, girando apenas até ao primeiro ponto de alívio de pressão, deixando sair o vapor residual antes de a retirar por completo.
Se tiver líquido de arrefecimento disponível, complete o nível. Em último recurso, e apenas para conseguir chegar a uma oficina, pode usar água limpa, mas isto deve ser sempre uma solução temporária. Se o problema persistir, ou se não conseguir identificar a causa com segurança, peça ajuda: um reboque até uma oficina de confiança custa sempre menos do que continuar a forçar um motor já comprometido.
Sintoma no Painel vs. Ação Imediata do Motorista
| Sintoma no Painel | Ação Imediata do Motorista |
|---|---|
| Ponteiro sobe lentamente para a zona vermelha | Desligue o ar condicionado, ligue o aquecimento ao máximo e procure encostar nos próximos minutos |
| Ponteiro no vermelho com luz de aviso aceia | Encoste de imediato em local seguro e desligue o motor sem demora |
| Fumo ou vapor branco a sair de baixo do capô | Não abra o capô de imediato; desligue o motor e afaste-se um pouco até o vapor diminuir |
| Cheiro adocicado ou a “queimado” dentro da viatura | Pare assim que possível e verifique se há líquido visível por baixo da viatura |
| Ruído metálico ou “batida” no motor após arrefecer | Não tente voltar a ligar a viatura; peça reboque ou ajuda mecânica especializada |
Prevenir Sai Sempre Mais Barato do que Retificar
No calor de Moçambique, o sistema de arrefecimento trabalha sempre perto do seu limite. Por isso, a prevenção não é exagero, é necessidade.
Antes de qualquer viagem longa, seja rumo a Beira, Inhambane ou Nampula, vale a pena pedir a uma oficina de confiança uma verificação simples e rápida ao sistema.
Confirmar o nível e o estado do líquido de arrefecimento, inspecionar as tubagens à procura de fissuras, e testar o funcionamento da ventoinha demora pouco tempo e custa muito pouco dinheiro.
A alternativa é arriscar muito mais. Uma junta da cabeça queimada pode facilmente custar o equivalente a várias revisões completas.
Em casos mais graves, com o bloco do motor deformado pelo calor extremo, a reparação pode mesmo deixar de valer a pena, obrigando à compra de um motor novo ou de segunda mão.
Cuide do seu sistema de arrefecimento antes que ele o obrigue a parar, literalmente, a meio do caminho. O seu bolso, e a sua viagem, vão agradecer.