É uma cena que se repete em muitas manhãs, em Maputo, na Matola ou em qualquer outra cidade moçambicana: já com o relógio a correr contra o tempo para chegar ao trabalho, o condutor entra no carro, roda a chave ou carrega no “start”, e o motor limita-se a “bater” aquele nhé-nhé-nhé característico sem conseguir pegar de primeira. Às vezes basta insistir mais um pouco e o carro lá acaba por arrancar. Outras vezes, a espera estica-se, os nervos ficam à flor da pele, e a única certeza é que aquele dia vai começar atrasado.
O que muitos condutores não percebem é que esta demora não é apenas um incómodo passageiro. Cada segundo extra que o motor de arranque passa a girar sem o motor pegar é um esforço eléctrico e mecânico considerável, que desgasta progressivamente o próprio motor de arranque e descarrega a bateria de forma muito mais rápida do que um arranque normal. Ou seja, aquilo que parece “só um bocadinho de demora” pode, com o tempo, transformar-se numa avaria bem mais séria e mais cara.
As 4 causas principais em Moçambique
Bateria fraca ou bornes oxidados
Esta é, sem dúvida, a causa mais comum. O calor intenso que se faz sentir em boa parte das províncias moçambicanas acelera a evaporação do fluido interno da bateria, reduzindo a sua capacidade real ao longo do tempo, mesmo que a bateria ainda pareça “viva” no dia a dia. A isto soma-se um problema muito característico das zonas costeiras, como Maputo, a Beira ou Pemba: a maresia favorece a formação daquele pó esverdeado ou esbranquiçado nos bornes da bateria, conhecido popularmente como azinhavre. Essa camada de oxidação funciona como uma barreira que impede a corrente de passar correctamente entre a bateria e o motor de arranque, exactamente no momento em que mais precisamos dessa energia toda concentrada.
Filtro de combustível entupido
Nem sempre o combustível que chega ao tanque está completamente limpo, seja por resíduos que se acumulam nos próprios depósitos dos postos de abastecimento, seja por sujidade acumulada dentro do tanque de carros usados importados ao longo dos anos. Com o tempo, essas partículas vão-se depositando no filtro de combustível, reduzindo progressivamente a passagem de gasolina ou de gasóleo. A bomba de combustível continua a fazer o seu trabalho, mas cada vez com mais dificuldade, e o combustível demora mais tempo a chegar aos injectores em quantidade suficiente para o motor pegar rapidamente.
Velas de ignição ou de aquecimento gastas
Nos carros a gasolina, velas de ignição já desgastadas deixam de criar a faísca forte e consistente de que o motor precisa para iniciar a combustão de forma imediata, o que se traduz directamente numa demora perceptível no arranque, sobretudo em dias mais frios. Já nos “bengas”, os carros a diesel, o problema equivalente está nas velas de aquecimento (também chamadas velas incandescentes): quando estas se queimam ou perdem eficiência, o motor deixa de atingir rapidamente a temperatura interna necessária para a combustão do gasóleo, e o resultado são aquelas manhãs em que o carro custa visivelmente mais a pegar, especialmente depois de uma noite mais fresca.
Fuga de pressão na linha de combustível
Quando um carro fica parado durante vários dias seguidos, é comum que uma válvula de retenção já desgastada perca a capacidade de manter o combustível pressurizado dentro da linha, permitindo que ele “recue” lentamente de volta para o tanque. Da próxima vez que o carro é ligado, a bomba de combustível tem de trabalhar mais do que o habitual para voltar a empurrar todo esse combustível ao longo da linha e restabelecer a pressão necessária, o que se traduz em vários segundos extra de “nhé-nhé-nhé” antes do motor finalmente pegar.
Dica de emergência: o truque da chave
Se o carro estiver a demorar mais do que o costume, há um pequeno truque que pode ajudar antes de sair a pé para o trabalho. Roda a chave apenas até à posição em que as luzes do painel se acendem, sem chegar a accionar o motor de arranque, e mantém essa posição por um ou dois segundos antes de voltar a soltar. Repete este movimento duas ou três vezes seguidas. O que estás a fazer, na prática, é accionar a bomba de combustível para pressurizar novamente todo o sistema antes da tentativa de arranque propriamente dita. Se a causa da demora estiver relacionada com perda de pressão na linha de combustível, este pequeno hábito costuma ajudar bastante o motor a pegar mais depressa.
Quando levar ao electricista ou mecânico auto
Se, mesmo depois de tentar este truque, o carro continuar a demorar de forma consistente a dar start, é hora de parar de “tentar a sorte” todas as manhãs e procurar ajuda profissional. Insistir repetidamente no arranque com o motor a resistir é um dos hábitos que mais rapidamente queima um motor de arranque, uma peça bem mais cara de substituir do que o problema original que a estava a sobrecarregar. Vale a pena pedir a um electricista auto um teste de saúde da bateria, conhecido como teste de CCA, que avalia a real capacidade da bateria de fornecer corrente suficiente num arranque a frio, e complementar com um diagnóstico por computador, feito com um scanner apropriado, capaz de identificar com precisão se o problema está relacionado com o sistema de combustível, com a ignição ou com outro componente electrónico do motor.
Conclusão
Um carro que demora a dar start raramente é um problema sem solução, mas é sempre um sinal que não deve ser ignorado durante muito tempo. Entre bateria, bornes, filtros e velas, a maioria das causas mais comuns em Moçambique está directamente ligada à manutenção preventiva. Manter a troca de filtros e velas dentro dos prazos recomendados pelo fabricante, e verificar regularmente o estado da bateria e dos bornes, é o caminho mais simples e mais barato para garantir que o carro pega de primeira, todas as manhãs, sem sustos nem atrasos.