O sector automóvel em Moçambique vive um momento de transformação acelerada. Depois de anos de crescimento quase exclusivamente sustentado pela importação de veículos usados, o país começa agora a dar sinais claros de uma transição mais profunda: novas políticas fiscais, abertura à mobilidade eléctrica, crescimento do parque automóvel e um mercado cada vez mais dinâmico nas principais cidades. Para quem compra, vende ou simplesmente usa um carro em Moçambique, acompanhar estas mudanças é essencial. Eis as principais notícias e tendências que estão a marcar o sector automóvel moçambicano em 2026.
O Parque Automóvel Cresce e Maputo Continua no Centro
O crescimento do número de veículos em circulação em Moçambique é uma das notícias mais consistentes do sector. O parque automóvel moçambicano cresceu 4,2 por cento em 2024, ultrapassando 1,3 milhões de viaturas, impulsionado pelos ligeiros, mas quase metade estava concentrado na cidade de Maputo.
Este crescimento é alimentado essencialmente pela importação. De janeiro a setembro de 2025, Moçambique importou o equivalente a um milhão de dólares por dia em automóveis — cerca de 259,5 milhões de dólares no total desses nove meses. Para ter uma perspectiva de como o mercado evoluiu, as importações de viaturas ascenderam a 369,3 milhões de dólares no total de 2022, a 421 milhões de dólares em 2023, e a 386,8 milhões de dólares em 2024.
A concentração do parque automóvel em Maputo reflecte as assimetrias do país: a capital e a sua área metropolitana continuam a ser o coração do mercado, onde a oferta de veículos, peças e serviços de manutenção é significativamente superior ao restante território nacional.
Veículos Eléctricos: Moçambique Abre as Portas à Mobilidade Verde
A notícia mais relevante do sector automóvel moçambicano nos últimos meses é, sem dúvida, a decisão do Governo de criar incentivos fiscais para a importação de veículos eléctricos. Trata-se de uma mudança de paradigma num país onde o carro a combustão interna sempre foi a única opção real.
Entre os incentivos previstos, destaca-se o regime de alívio de impostos para veículos totalmente eléctricos, com impacto directo na redução do custo de importação e aquisição no mercado nacional. De acordo com o pacote aprovado, autocarros eléctricos a partir de 40 lugares passam a beneficiar de isenção do Imposto sobre Consumos Específicos (ICE), pagando apenas 5% de direitos ao nível da importação.
É importante perceber os limites desta medida. As isenções fiscais abrangem exclusivamente viaturas 100% eléctricas, não sendo extensivas aos veículos híbridos. O enquadramento inclui igualmente componentes essenciais associados à mobilidade eléctrica, como baterias e sistemas de carregamento, desde que enquadrados na classificação aduaneira aplicável.
O Governo enquadra esta medida numa estratégia de longo prazo. Com o desarmamento tarifário previsto, as taxas serão reduzidas gradualmente, passando em 2026 para limites entre 1,7 e 17 por cento, até atingir tarifa zero em 2033. Do ponto de vista político, o Conselho de Ministros aprovou a proposta de Lei que prorroga a vigência das Taxas do Imposto sobre Consumos Específicos para o biénio 2026–2027, reduzindo a carga fiscal sobre veículos eléctricos e de transporte colectivo e alinhando os códigos pautais às políticas de mobilidade e transportes.
Na prática, o impacto imediato desta medida será mais visível no transporte colectivo urbano do que no mercado de veículos ligeiros. O preço de aquisição de um carro eléctrico de passageiros continua fora do alcance da maioria dos moçambicanos, mas a sinalização política é clara: o país prepara-se para a transição eléctrica.
Os Preços dos Carros em 2026: O Que Está a Acontecer no Mercado
O mercado automóvel moçambicano continua a ser dominado pelos veículos usados, e os preços reflectem tanto a procura crescente como a volatilidade cambial do metical face ao rand sul-africano e ao dólar americano.
O mercado automóvel moçambicano é dominado por veículos usados importados, maioritariamente do Japão, da África do Sul e, em menor escala, dos Emirados Árabes Unidos e da Europa. Os carros novos existem e vendem-se nos concessionários autorizados das principais cidades, mas representam uma fatia pequena das transacções totais num país onde o poder de compra médio ainda é limitado para a maior parte da população.
Para quem procura um carro novo, um Toyota Corolla novo de 2024 ou 2025 custa nos concessionários autorizados entre 1.800.000 e 2.400.000 meticais dependendo da versão, enquanto um Toyota Hilux novo parte dos 3.200.000 meticais nas versões mais básicas e pode ultrapassar os 5.000.000 meticais nas versões totalmente equipadas.
No segmento de usados, que é onde a grande maioria das transacções acontece, um Toyota Corolla entre 2008 e 2014, em bom estado e com quilometragem razoável, custa tipicamente entre 450.000 e 700.000 meticais, enquanto um Toyota Hilux entre 2005 e 2010, nas versões de cabine dupla e com tracção nas quatro rodas, custa entre 900.000 e 1.500.000 meticais.
As marcas sul-coreanas continuam a ganhar terreno. A Hyundai, que tem crescido em Moçambique nos últimos anos, oferece o Tucson novo a partir de cerca de 2.000.000 meticais e o Santa Fe entre 2.800.000 e 3.800.000 meticais. Este crescimento da Hyundai e da Kia no mercado moçambicano é uma das tendências que mais analistas do sector têm acompanhado.
Segurança Rodoviária: Um Problema que Exige Resposta Urgente
Nem todas as notícias do sector automóvel moçambicano são positivas. Os dados de sinistralidade rodoviária divulgados recentemente são preocupantes e colocam a segurança nas estradas como uma prioridade nacional urgente.
Acidentes de viação mataram 830 pessoas em 2025 em Moçambique, segundo dados apresentados pelo Procurador-Geral da República. A província de Maputo lidera o número de óbitos, com 152, seguida da cidade de Maputo, com 139, e Gaza com 88.
As causas apontadas pelas autoridades são claras. O Procurador-Geral moçambicano indicou que concorre para a sinistralidade a falta de profissionalização dos condutores dos transportes públicos, semi-colectivos e de carga, sublinhando a necessidade de esta classe de trabalhadores ser sujeita à carteira profissional para o exercício da actividade e à avaliação periódica, inclusive da sua conduta individual. As autoridades apontam também para a violação de normas preventivas, deficiências na fiscalização rodoviária e más condições técnicas dos veículos como factores determinantes.
Estes números sublinham a importância de investir não apenas no crescimento do parque automóvel, mas também na qualidade da condução, no estado dos veículos e na infraestrutura rodoviária.
O Mercado de Usados: Mais Profissional e Mais Competitivo
Uma das transformações silenciosas mas relevantes no sector automóvel moçambicano é a profissionalização progressiva do mercado de veículos usados. Se há alguns anos a compra de um carro usado era feita quase exclusivamente entre particulares ou em estabelecimentos informais, hoje Maputo conta já com empresas estruturadas que oferecem veículos recondicionados com garantia.
Empresas como a CarPlus da Caetano Moçambique posicionam-se no mercado com uma oferta de veículos multimarca verificados e recondicionados, procurando trazer ao sector práticas mais transparentes e profissionais. A MotorMoz é outro exemplo de operador especializado na importação e comercialização de viaturas em Maputo, destacando-se pelo atendimento qualificado e pela oferta diversificada.
Esta profissionalização é uma boa notícia para o consumidor, que passa a ter acesso a mais garantias e a processos de compra mais seguros. É também um sinal de maturidade de um mercado que, durante muito tempo, funcionou de forma quase inteiramente informal.
Moçambique no Radar da Indústria de Baterias Eléctricas
Uma notícia que passou relativamente despercebida no contexto automóvel mas que pode ter implicações de longo prazo para o sector: Moçambique está a despertar o interesse da indústria global de veículos eléctricos como fornecedor de matérias-primas estratégicas.
O país possui reservas significativas de grafite, um componente essencial nas baterias de iões de lítio que alimentam os veículos eléctricos. A crescente procura global por estas baterias, impulsionada pela transição para a mobilidade eléctrica na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, coloca Moçambique numa posição potencialmente estratégica como fornecedor de matérias-primas para a indústria automóvel global. Esta dimensão do sector automóvel moçambicano é ainda incipiente, mas é uma história que vale a pena acompanhar nos próximos anos.
O Que Esperar para o Resto de 2026
O sector automóvel moçambicano em 2026 é marcado por três grandes tendências que vão continuar a definir o mercado nos próximos meses.
A primeira é a consolidação dos incentivos à mobilidade eléctrica, que deverão começar a ter efeitos práticos no transporte colectivo urbano, com a possível introdução de autocarros eléctricos nas principais cidades. A segunda é a continuação do crescimento do parque automóvel, sustentado pela importação de veículos usados e pela classe média urbana em expansão, especialmente em Maputo, Beira e Nampula. A terceira é a pressão crescente para melhorar a segurança rodoviária, com as autoridades a anunciar medidas mais rigorosas de fiscalização e de certificação dos condutores profissionais.
Para o consumidor moçambicano, 2026 traz um mercado com mais opções, mais profissionalismo e, esperemos, estradas progressivamente mais seguras.
Conclusão
O sector automóvel moçambicano está em movimento. Da abertura à mobilidade eléctrica à profissionalização do mercado de usados, passando pelos desafios sérios da sinistralidade rodoviária, as notícias de 2026 pintam um retrato de um sector em transformação real, com desafios igualmente reais. Acompanhar esta evolução é essencial para qualquer moçambicano que use ou pense comprar um carro — e para todos os que dependem das estradas do país para trabalhar, viajar e viver.