Moçambique está a dar os seus primeiros passos concretos na mobilidade elétrica, e esses passos são mais firmes do que muitos imaginam. Das ruas de Maputo às estradas do interior, motorizadas, scooters e txopelas elétricas começam a fazer parte do quotidiano urbano, empurradas por empresas locais com visão e por um contexto energético que, paradoxalmente, torna a eletricidade uma alternativa mais viável do que a gasolina para muitos moçambicanos. Mas à medida que a frota cresce, uma questão torna-se cada vez mais urgente: quem vai manter estes veículos? E em que condições?
Um Mercado em Construção
A Epsilon Mobilidade, sub-marca da Epsilon Energia Solar, é hoje uma das referências nacionais na introdução de veículos elétricos de duas e três rodas no mercado moçambicano. Sob nomes evocadores em línguas locais o Vevuka (leve), o Uswaya (rápido) e o Ikukulu (espaço), a empresa oferece scooters, motorizadas e txopelas elétricas concebidas para a mobilidade urbana e para o transporte de pequenas cargas. O modelo de negócio assenta no sistema PAYGO pagamento progressivo, o que facilita o acesso a uma tecnologia que, de outro modo, estaria fora do alcance da maioria dos utilizadores.
Em agosto de 2025, a Epsilon Mobilidade foi mais longe ao assinar um Memorando de Entendimento com a Yango, plataforma internacional de transporte digital, para integrar veículos elétricos nas suas plataformas e expandir redes de carregamento solar para frotas urbanas. O acordo previu também iniciativas de formação profissional e projetos-piloto de mobilidade verde em cidades estratégicas do país um sinal claro de que a aposta na eletrificação do transporte urbano já não é apenas discurso. Mais recentemente, o Banco Comercial e de Investimentos (BCI) juntou-se a este ecossistema através de uma parceria com a Epsilon Energia, disponibilizando linhas de crédito facilitadas para a aquisição de veículos elétricos, com especial atenção à inclusão económica das mulheres.
O Que Significa Manter um Veículo Elétrico
Ao contrário do que muitos possam pensar, os veículos elétricos exigem menos manutenção do que os convencionais a gasolina. O motor elétrico não tem peças móveis sujeitas ao desgaste mecânico típico não há pistões, correias de distribuição, caixas de velocidades complexas nem filtros de óleo para substituir regularmente. Isto traduz-se, em teoria, em custos operacionais mais baixos e menos paragens em oficina.
Porém, a manutenção existe e é especializada. A bateria de tração é o componente central de qualquer veículo elétrico e o que mais atenção requer. A sua longevidade depende diretamente dos hábitos de carregamento carregá-la sempre a 100% ou deixá-la esgotar completamente deteriora as células mais rapidamente. O sistema de gestão da bateria, conhecido como BMS, monitoriza continuamente o estado de carga, a temperatura e o equilíbrio entre células, e qualquer falha neste sistema exige diagnóstico eletrónico especializado. No contexto moçambicano, onde as temperaturas podem ser elevadas e a rede elétrica nem sempre é estável, estes fatores tornam-se ainda mais relevantes.
Os pneus são outro ponto de atenção. Devido ao peso adicional das baterias e à forma como os motores elétricos entregam torque instantaneamente, o desgaste dos pneus nos veículos elétricos tende a ser mais acentuado do que nos seus equivalentes a combustão. O sistema de travagem, geralmente assistido por regeneração, também exige verificações específicas. E o software porque estes veículos são, em boa medida, computadores sobre rodas necessita de atualizações periódicas que garantem o bom funcionamento dos sistemas de controlo e segurança.
O Grande Gargalo: A Formação Técnica
Aqui reside o principal desafio de Moçambique, e não é exclusivo do país é uma realidade partilhada por toda a África Subsariana. A mecânica convencional e a eletromecânica de veículos elétricos são disciplinas muito diferentes. Um técnico habituado a trabalhar com motores a gasolina não está automaticamente preparado para diagnosticar falhas num inversor, calibrar um BMS ou trabalhar em segurança com sistemas de alta voltagem. A negligência neste ponto não é apenas ineficiente é perigosa.
Moçambique dispõe de instituições como o Instituto de Transportes e Comunicações (ITC) e o ITEC que oferecem formação em eletricidade industrial, criando uma base técnica que pode ser adaptada e especializada para a mobilidade elétrica. No entanto, a formação específica em manutenção de veículos elétricos ainda está em fase embrionária no país. As parcerias como a da Epsilon com a Yango, que incluem explicitamente iniciativas de formação profissional e inclusão tecnológica, são um passo encorajador, mas o caminho a percorrer é longo.
A Questão da Rede Elétrica
Qualquer conversa séria sobre veículos elétricos em Moçambique passa inevitavelmente pela realidade energética do país. Com uma taxa de eletrificação que ainda não cobre toda a população, e com cortes e instabilidades na rede que afetam mesmo as áreas urbanas, o carregamento fiável dos veículos elétricos é um desafio logístico real. A resposta que tem emergido e que é, de certa forma, uma solução genuinamente moçambicana é o carregamento solar. A Epsilon Mobilidade opera estações de carregamento com energia fotovoltaica, aproveitando o enorme potencial solar do país para contornar as limitações da rede convencional. Esta abordagem não é apenas prática é estrategicamente inteligente, uma vez que desacopla a mobilidade elétrica da fragilidade da rede e reduz os custos operacionais a longo prazo.
Uma Oportunidade de Mercado Ainda por Explorar
Para os empresários do setor automóvel e para os técnicos moçambicanos, a manutenção de veículos elétricos representa uma oportunidade de negócio significativa que ainda não foi capturada em pleno. As oficinas que investirem agora em equipamentos de diagnóstico eletrónico, em formação especializada e em ferramentas adequadas ao trabalho com alta voltagem estarão numa posição privilegiada num mercado que só tende a crescer. O custo de entrada não é trivial, mas a janela de antecipação o período em que é possível posicionar-se antes da concorrência está ainda aberta.
A reconversão dos técnicos existentes é igualmente uma oportunidade. Um mecânico experiente que complemente os seus conhecimentos com formação em eletrotécnica automóvel e sistemas de gestão de baterias torna-se um perfil raro e muito valorizado. A transição não exige partir do zero exige uma atualização de competências que pode ser feita de forma gradual e progressiva.
O Papel do Estado e da Regulação
Para que este ecossistema se desenvolva de forma sã e sustentável, a intervenção do Estado é indispensável. Normas claras de segurança para o trabalho com sistemas de alta voltagem, regulamentação para o descarte e reciclagem de baterias componente com impacto ambiental significativo se mal gerida, e incentivos fiscais para a importação de ferramentas de diagnóstico especializado são medidas que poderiam acelerar a transformação do setor. A criação de centros de formação técnica certificados em parceria com o setor privado seria igualmente um passo de grande impacto.
Moçambique tem a vantagem de poder aprender com os erros e sucessos de outros mercados, adaptando as melhores práticas à sua realidade específica uma realidade feita de sol abundante, de uma população jovem e adaptável, e de uma necessidade urgente de soluções de mobilidade mais económicas e menos dependentes de combustíveis importados.
Um Futuro que Chega a Pedalar
A transição para a mobilidade elétrica em Moçambique não vai chegar pela porta dos grandes sedãs de luxo vai chegar, como já está a chegar, pela porta das txopelas, das motorizadas e das scooters que percorrem os bairros de Maputo, de Beira e de Nampula todos os dias. É uma transição humilde na forma, mas profunda no impacto. E a manutenção destes veículos feita com rigor, com técnicos bem formados e com infraestruturas adequadas é a espinha dorsal silenciosa que vai determinar se esta revolução dura ou se esgota antes de chegar ao seu potencial.
O momento de investir nessa espinha dorsal é agora.