Controlo Técnico Automóvel em Moçambique: Entre a Norma e a Realidade

Em muitos países do mundo, o controlo técnico automóvel conhecido em diferentes contextos como inspecção periódica, vistoria obrigatória ou revisão técnica é um mecanismo estabelecido e respeitado de verificação da segurança e conformidade dos veículos em circulação. É a forma que o Estado encontrou para garantir que os veículos que partilham as estradas com cidadãos, ciclistas e peões cumprem um conjunto mínimo de condições técnicas de segurança, desde o estado dos travões e dos pneus até ao funcionamento das luzes e ao nível de emissões do motor.

Em Moçambique, o controlo técnico automóvel existe enquanto conceito legal e enquanto exigência regulatória. Existe legislação que define a obrigatoriedade da vistoria periódica dos veículos, existem estruturas institucionais com responsabilidade na sua aplicação e existe, nas grandes cidades, alguma infraestrutura de controlo. Mas a distância entre o que a norma prevê e o que a realidade quotidiana demonstra é uma das características mais marcantes deste sector no país, e compreender essa distância as suas causas, as suas consequências e os caminhos para a reduzir é essencial para qualquer análise honesta da segurança rodoviária em Moçambique.

O Que é Verificado num Controlo Técnico

Um controlo técnico automóvel completo e rigoroso abrange uma série de sistemas e componentes do veículo que são críticos para a segurança da circulação. O sistema de travagem é um dos pontos mais importantes da inspecção a eficiência de travagem é medida em banco de ensaio, verificando-se que a força de travagem em cada roda está dentro dos parâmetros admissíveis e que não existe desequilíbrio entre rodas do mesmo eixo que possa causar desvios perigosos durante uma travagem de emergência.

A direcção e a suspensão são igualmente inspeccionadas com detalhe. As folgas nas articulações, o estado dos amortecedores, a condição dos braços de suspensão e das barras estabilizadoras são verificados porque componentes desgastados nestes sistemas comprometem a estabilidade do veículo, o controlo em curva e a distância de travagem. Os pneus a única interface física entre o veículo e a estrada são inspeccionados quanto à profundidade do piso, à pressão e ao estado geral, incluindo a presença de cortes, deformações ou desgaste irregular.

O sistema de iluminação é outro ponto de verificação fundamental. Os faróis, as luzes de travagem, os piscas e as luzes de marcha-atrás devem estar todos operacionais e correctamente orientados. Uma luz de travagem fundida pode ser a diferença entre um embate traseiro evitável e um acidente com vítimas. Os faróis mal orientados, que em Moçambique são extremamente comuns, encadeiam os condutores em sentido contrário nas estradas sem iluminação pública que caracterizam grande parte do território nacional.

As emissões do motor são um ponto de inspecção que tem crescente relevância do ponto de vista ambiental e de saúde pública. Um motor que emite fumo negro excessivo não apenas contribui para a poluição atmosférica das cidades moçambicanas indica também um motor com combustão deficiente, que pode ser sintoma de injectores desgastados, filtro de ar entupido ou outros problemas mecânicos que afectam o desempenho e o consumo do veículo.

A verificação da documentação do veículo seguro obrigatório de responsabilidade civil, documentos de propriedade e de registo é também parte integrante do processo de controlo técnico, garantindo que apenas veículos legalmente registados e cobertos por seguro circulam nas estradas públicas.

O Quadro Institucional em Moçambique

Em Moçambique, a responsabilidade pelo controlo técnico automóvel está distribuída entre várias entidades. O Instituto Nacional de Transportes Terrestres, conhecido como INATTER, é o organismo com tutela sobre o registo e licenciamento de veículos e sobre a regulação do sector dos transportes terrestres. A Polícia da República de Moçambique, através das suas brigadas de fiscalização rodoviária, tem competência para verificar em estrada o cumprimento das normas de segurança e documentação dos veículos.

As vistorias obrigatórias dos veículos são realizadas em centros de inspecção, cuja distribuição pelo território nacional é desigual, com maior concentração em Maputo e nas capitais provinciais. Para um país com a extensão territorial de Moçambique e com uma rede de transportes onde muitos veículos operam em zonas remotas, esta concentração dos centros de inspecção nas zonas urbanas cria dificuldades práticas que favorecem o incumprimento das obrigações de vistoria por parte dos proprietários de veículos nas zonas rurais e do interior.

A periodicidade das vistorias obrigatórias varia em função da categoria e idade do veículo. Os veículos de transporte público e de mercadorias pesadas estão sujeitos a obrigações mais frequentes e rigorosas do que os veículos de passeio particulares, o que reflecte o maior risco associado a estes veículos pelas distâncias percorridas, as cargas transportadas e o número de passageiros envolvidos.

A Realidade nas Estradas

Quem circula habitualmente pelas estradas moçambicanas sabe que a distância entre as exigências legais do controlo técnico e o estado real de muitos dos veículos em circulação é considerável. Veículos com fumo negro a sair do escape, com pneus carecas ou mal calibrados, com luzes avariadas ou inexistentes, com suspensões claramente degradadas e com travões deficientes circulam diariamente e em grande número tanto nas cidades como nas estradas nacionais.

Esta realidade resulta de um conjunto de factores que se reforçam mutuamente. A fiscalização em estrada, embora presente, não tem a consistência e a abrangência necessárias para criar um efeito dissuasor generalizado. A capacidade dos centros de inspecção existentes é limitada em relação ao volume de veículos registados no país. Os custos associados à colocação de um veículo em conformidade técnica reparações necessárias para passar a vistoria são, para muitos proprietários, especialmente os que dependem do veículo para o seu rendimento diário, um encargo financeiro difícil de suportar de uma só vez.

A cultura de manutenção preventiva, como já foi abordado noutros contextos, ainda está em desenvolvimento em Moçambique. Muitos condutores encaram a vistoria obrigatória como uma formalidade burocrática a gerir e não como uma verificação genuína de segurança que os protege a eles próprios e aos outros utentes da estrada. Esta percepção alimenta práticas que comprometem a integridade do sistema, incluindo vistorias realizadas de forma superficial ou com procedimentos que não garantem a efectiva verificação das condições técnicas do veículo.

Os Acidentes como Consequência

A correlação entre o estado técnico deficiente dos veículos e os acidentes de viação em Moçambique é real e documentada, embora seja difícil isolar a componente técnica de outros factores igualmente importantes como o excesso de velocidade, a condução sob o efeito do álcool e o estado das estradas. O Instituto Nacional de Estatística e as autoridades de trânsito registam anualmente um número preocupante de sinistros rodoviários com vítimas mortais e feridos graves, e os veículos com deficiências técnicas travões insuficientes, pneus lisos, luzes avariadas aparecem de forma recorrente nos relatórios de acidentes como factores contribuintes.

Os veículos de transporte colectivo de passageiros merecem uma atenção particular neste contexto. Os chapas que constituem a espinha dorsal do transporte urbano em Maputo e noutras cidades moçambicanas transportam diariamente um número muito superior de passageiros ao que o veículo foi concebido para acomodar, em condições de manutenção que frequentemente deixam muito a desejar. A pressão económica sobre os operadores que precisam de maximizar as viagens e minimizar os custos para garantir a sobrevivência do negócio cria incentivos estruturais para o adiamento das manutenções e a circulação de veículos em condições técnicas inadequadas.

Boas Práticas e Referências Regionais

Para perceber o que é possível alcançar com um sistema de controlo técnico automóvel bem implementado, Moçambique não precisa de olhar muito longe. A África do Sul, principal parceiro comercial e referência regional em muitas áreas, tem um sistema de roadworthiness testing o equivalente à inspecção obrigatória que, embora não isento de críticas e desafios próprios, oferece uma estrutura de verificação mais abrangente e mais consistentemente aplicada.

No contexto da SADC a comunidade de países da África Austral a que Moçambique pertence, existe uma consciência crescente da necessidade de harmonizar as normas de segurança rodoviária entre os estados membros, incluindo os requisitos de inspecção técnica dos veículos. Esta harmonização regional tem o potencial de criar pressão positiva para a melhoria dos sistemas nacionais de controlo técnico, facilitando também a circulação transfronteiriça de veículos com garantias mínimas de segurança.

Dentro do próprio Moçambique, algumas empresas do sector privado especialmente os operadores de frotas de transporte de mercadorias e as organizações internacionais com operações no país implementaram sistemas internos de inspecção e manutenção periódica dos seus veículos que vão além do que a lei exige. Estas práticas, motivadas tanto por razões de segurança como de eficiência operacional e de responsabilidade perante seguradoras e financiadores, demonstram que é possível manter frotas em bom estado técnico no contexto moçambicano quando existe vontade e capacidade organizacional para o fazer.

O Papel das Oficinas e Centros Automotivos

As oficinas e centros automotivos têm um papel que vai além da simples reparação no contexto do controlo técnico automóvel em Moçambique. São frequentemente o primeiro ponto de contacto do condutor com a informação sobre o estado técnico real do seu veículo, e os técnicos que trabalham nestes estabelecimentos têm a oportunidade e a responsabilidade de comunicar ao cliente não apenas o que está avariado no momento mas também o que está a aproximar-se do limite de segurança e que precisará de atenção num futuro próximo.

Os melhores centros automotivos moçambicanos já adoptaram a prática da inspecção multi-ponto uma verificação sistemática dos principais sistemas do veículo em cada visita à oficina, independentemente do motivo que levou o cliente a procurar o serviço. Esta abordagem, que transforma cada visita numa oportunidade de avaliação do estado geral do veículo, aproxima-se do espírito do controlo técnico oficial e contribui para manter os veículos em melhores condições de segurança, mesmo que de forma voluntária e não regulatória.

A emissão de relatórios de inspecção documentados, com registo escrito do estado de cada sistema verificado e das recomendações para intervenções futuras, é uma prática que os centros automotivos mais profissionais estão a adoptar progressivamente. Para o cliente, este documento tem valor imediato informa sobre o estado do seu veículo e valor a prazo, criando um histórico de manutenção que pode ser relevante para efeitos de seguro, de venda do veículo ou simplesmente para planear as despesas de manutenção ao longo do ano.

Caminhos para a Melhoria

A melhoria do sistema de controlo técnico automóvel em Moçambique não é uma tarefa que possa ser resolvida por uma única medida ou por um único actor. É um processo que requer acção coordenada em várias frentes ao longo do tempo, com o envolvimento do Estado, do sector privado, das associações do sector automóvel e da sociedade em geral.

O investimento na expansão e modernização da rede de centros de inspecção, com cobertura mais equitativa do território nacional incluindo as zonas rurais e do interior, é uma condição necessária para tornar a inspecção obrigatória acessível a todos os proprietários de veículos e não apenas àqueles que residem nas grandes cidades. A par desta expansão física, a modernização dos equipamentos de inspecção e a formação dos técnicos que os operam são investimentos que determinam directamente a qualidade e a credibilidade dos resultados das vistorias.

O reforço da fiscalização em estrada, com mais recursos e maior consistência geográfica e temporal, é igualmente essencial para criar o efeito dissuasor que leva os condutores a cumprir as obrigações de manutenção e de vistoria. Uma fiscalização previsível, rigorosa e aplicada de forma equitativa sem excepções baseadas em relações pessoais ou em capacidade de negociação informal é um instrumento poderoso de melhoria do estado técnico médio dos veículos em circulação.

A educação dos condutores sobre a importância do controlo técnico e da manutenção preventiva, integrada nos programas de formação para a obtenção da carta de condução e reforçada através de campanhas de comunicação pública, é um investimento de médio e longo prazo que contribui para mudar a cultura de manutenção automóvel no país. Um condutor que compreende porque o estado dos seus travões importa não apenas para si mas para todos os que partilham a estrada é um condutor que toma decisões de manutenção mais responsáveis.

Uma Questão de Civilização Rodoviária

O controlo técnico automóvel não é uma burocracia a tolerar nem um obstáculo a contornar. É uma expressão concreta da responsabilidade colectiva que cada proprietário de veículo tem perante a comunidade em que circula. Em Moçambique, onde as estradas são partilhadas por veículos motorizados, ciclistas, motorizadas e peões em condições de convivência frequentemente caótica, a segurança técnica dos veículos é uma dimensão da segurança pública que merece o mesmo grau de seriedade e de investimento que outras áreas de segurança colectiva.

Construir um sistema de controlo técnico automóvel que funcione que seja rigoroso, acessível, transparente e efectivamente cumprido é um projecto de civilização rodoviária que Moçambique tem todo o interesse em abraçar. Não apenas porque reduz os acidentes e salva vidas, embora isso por si só já justificasse todos os esforços. Mas também porque veículos em melhor estado técnico são veículos mais eficientes, que consomem menos combustível, que poluem menos e que duram mais benefícios que se traduzem directamente na economia das famílias e no desenvolvimento sustentável do país.

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