Um País Refém do Preço do Combustível
Em Moçambique, encher o depósito do carro tornou-se um momento de ansiedade. O condutor chega à bomba sem saber ao certo quanto vai pagar, e quando vê o total no ecrã do posto, muitas vezes respira fundo antes de aceitar. O preço do combustível no país tem subido de forma consistente nos últimos anos, corroendo o orçamento das famílias, encarecendo os transportes públicos e aumentando os custos de praticamente todos os bens e serviços. Perceber porque é que o combustível custa tanto em Moçambique e o que se pode fazer para minimizar esse impacto é uma questão que interessa a toda a gente, de Maputo ao Niassa.
Por Que É Que o Combustível Custa Tanto?
A resposta começa fora das fronteiras do país. Moçambique não refina o seu próprio combustível em escala significativa, o que significa que depende quase inteiramente da importação de gasolina e gasóleo, sobretudo a partir da África do Sul e de países do Médio Oriente. Quando os preços internacionais do petróleo sobem como aconteceu de forma dramática após a pandemia de COVID-19 e com a guerra na Ucrânia o impacto chega directamente às bombas moçambicanas sem filtro nem amortecimento.
A taxa de câmbio é outro factor determinante. Como o petróleo é transaccionado em dólares americanos nos mercados internacionais, qualquer depreciação do metical face ao dólar encarece automaticamente o combustível importado, mesmo que o preço do barril de petróleo não tenha mudado. E o metical tem sofrido pressões significativas ao longo dos anos, o que significa que os moçambicanos pagam duplamente pelo preço do mercado global e pela fraqueza da sua própria moeda.
Para além disso, os custos logísticos de transportar o combustível desde os portos até às províncias do interior do país são consideráveis. Moçambique é um país longo e com infraestruturas rodoviárias limitadas, e o preço que se paga num posto em Lichinga ou em Cuamba é substancialmente mais alto do que em Maputo precisamente porque o combustível percorreu centenas de quilómetros adicionais por estrada antes de chegar ao depósito do consumidor. Os impostos e as margens da cadeia de distribuição completam a equação, tornando o preço final um acumulado de vários factores que raramente trabalham a favor do consumidor.
Quem Paga a Factura
O impacto do combustível caro não é igual para toda a gente. Para as famílias de classe média urbana que dependem do carro para trabalhar, o custo mensal de combustível representa uma fatia crescente do orçamento que compete directamente com alimentação, saúde e educação. Mas o impacto mais silencioso e mais devastador recai sobre as pessoas que não têm carro.
Os transportes públicos os famosos chapas funcionam com combustível. Quando o preço do gasóleo sobe, os operadores de transporte repassam esse custo para a tarifa, e quem usa chapa todos os dias para ir trabalhar sente esse aumento de forma imediata. O mesmo acontece com os produtos alimentares: os tomates de Chimoio, a mandioca de Gaza, o peixe de Angoche chegam aos mercados de Maputo transportados em camiões a gasóleo, e o custo desse transporte está embutido no preço final que o consumidor paga na barraca ou no supermercado. O combustível caro, em última análise, encarece a vida de toda a gente mesmo de quem nunca pôs um pé numa bomba de gasolina.
A Tentação dos Subsídios e os Seus Limites
Durante anos, o governo moçambicano manteve subsídios ao preço dos combustíveis como forma de proteger os consumidores da volatilidade dos preços internacionais. Esta política tem um custo fiscal enorme para um Estado com recursos limitados, e tem sido alvo de debate permanente entre quem defende a protecção social das famílias mais vulneráveis e quem argumenta que os subsídios beneficiam desproporcionalmente quem tem carro ou seja, quem é relativamente mais rico. A realidade é que os subsídios aliviam a dor no curto prazo mas não resolvem o problema estrutural: enquanto Moçambique depender quase totalmente da importação de combustível, estará sempre vulnerável a choques externos que nenhuma política interna consegue controlar completamente.
O Que Cada Pessoa Pode Fazer
Perante um problema que tem raízes profundas em mercados globais e em decisões políticas que estão muito além do controlo individual, a questão prática é: o que pode cada condutor, cada família, cada empresa fazer para reduzir o impacto do combustível caro no seu dia-a-dia?
A resposta mais eficaz começa na forma de conduzir. Um veículo conduzido de forma suave e constante, evitando acelerações bruscas e travagens desnecessárias, pode consumir até 20% menos combustível do que o mesmo veículo conduzido de forma agressiva. Em Maputo, onde o trânsito caótico convida a arranques e paragens contínuas, adoptar uma condução mais calma e antecipatória faz uma diferença real na bomba no fim do mês. Manter o carro bem calibrado com os pneus à pressão correcta, o filtro de ar limpo e o motor afinado também reduz o consumo de forma mensurável. Um pneu com pressão abaixo do recomendado pode aumentar o consumo em 3% a 5%, o que ao longo de um ano representa litros desperdiçados e dinheiro que podia ter ficado no bolso.
O planeamento das viagens é outra ferramenta poderosa que custa zero meticais. Concentrar várias tarefas numa mesma saída de carro em vez de fazer três viagens curtas em momentos diferentes do dia reduz a distância total percorrida e, consequentemente, o combustível gasto. Em cidades como Maputo e Beira, onde os congestionamentos são frequentes e previsíveis, sair mais cedo ou mais tarde para evitar as horas de ponta significa menos tempo com o motor a trabalhar sem andar, o que se traduz directamente em poupança.
Soluções de Longo Prazo Que Já Estão a Acontecer
Além das medidas individuais, existem transformações mais profundas que têm o potencial de alterar estruturalmente a dependência de Moçambique em relação ao combustível importado. O país tem recursos naturais extraordinários para produzir energia renovável sol durante todo o ano em quase todo o território, vento na zona costeira e potencial hidroeléctrico considerável nos seus rios. A transição para veículos eléctricos, embora ainda distante da realidade da maioria dos moçambicanos, é uma tendência global que vai inevitavelmente chegar ao país, e começar a criar as condições para essa transição postos de carregamento, incentivos fiscais, formação de técnicos é um investimento que o país não pode continuar a adiar.
A mobilidade partilhada é outra via promissora. Em Maputo, o crescimento de aplicações de transporte por ridesharing tem permitido a muitas famílias dispensar o segundo carro ou reduzir o uso do primeiro, partilhando custos de combustível com outros passageiros que fazem percursos semelhantes. Esta lógica, ampliada e formalizada, pode reduzir significativamente o número de carros a circular nas cidades e, por consequência, a procura total de combustível.
O desenvolvimento da refinação local é uma aposta estratégica que Moçambique tem discutido há décadas sem resultados concretos. Com as reservas de gás natural descobertas na bacia do Rovuma, o país tem potencialmente a matéria-prima para reduzir a sua dependência de importações de combustível refinado. Transformar esse gás em energia para o consumo interno seja directamente através de veículos a gás natural, seja através da geração de electricidade para veículos eléctricos seria um passo estrutural que nenhuma outra medida consegue substituir.
A Consciência Como Primeiro Passo
O combustível caro em Moçambique não é um problema com solução simples nem imediata. As suas causas são globais, estruturais e políticas, e a sua resolução depende de decisões que vão muito além do que um condutor pode fazer sozinho. Mas entre a resignação passiva e a transformação possível, existe um espaço concreto de acção na forma como se conduz, na forma como se planeia, na forma como se escolhe o carro, na forma como se usa o espaço urbano.
A consciência do problema é sempre o primeiro passo. Quem entende porque é que paga tanto na bomba está melhor equipado para fazer escolhas que aliviam essa pressão, e para exigir das autoridades políticas as transformações estruturais que o país precisa. O combustível caro é um sintoma. A dependência energética do exterior é a doença. E a cura exige tempo, investimento e vontade política que, esperemos, não demore tanto a chegar quanto o gás do Rovuma a entrar em produção plena.